(Pixabay) O cotidiano agora pulsa em códigos — algoritmos que decidem o que vemos, lemos e até o que sentimos antes mesmo de perceber. Há uma cadência invisível guiando escolhas, como se o mundo tivesse sido afinado por uma mesma nota, repetida à exaustão. Como se cada gesto fosse antecipado, cada desejo mapeado, cada surpresa domesticada antes de nascer. Ainda assim, há momentos em que algo falha: uma frase torta, um pensamento desalinhado, uma ideia que não cabe no molde. Um incômodo sutil, mas suficiente para deslocar o olhar. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A promessa da inteligência artificial é sedutora: rapidez, eficiência, uma espécie de ubiquidade criativa. Textos surgem em segundos, imagens florescem sem tinta, vozes são reproduzidas sem corpo. Criar deixa de ser travessia e passa a parecer atalho. Mas, sob essa abundância, cresce um silêncio inquietante — o da uniformização. Tudo parece correto demais, polido demais, como se a arte tivesse sido domesticada. Onde antes havia risco, erro e improviso, agora há previsibilidade. Walter Benjamin, ao refletir sobre a reprodutibilidade técnica da arte, já alertava para a perda da “aura”, essa presença única do original. Hoje, talvez não se trate apenas da reprodução, mas da própria origem dissolvida em padrões estatísticos. Se tudo pode ser gerado, o que ainda pode ser vivido? Se tudo pode ser simulado, o que ainda pode ser sentido? Byung-Chul Han, por sua vez, descreve uma sociedade do cansaço e da transparência, onde tudo deve ser acessível, imediato. A inteligência artificial leva esse ideal ao extremo: elimina o esforço, antecipa o gesto, responde antes da pergunta amadurecer. Encurta o tempo da dúvida e reduz o espaço da inquietação. E, nesse encurtamento, algo se perde — o pensamento que se constrói aos tropeços. Talvez seja justamente aí que resida a urgência de resgatar o caráter revolucionário da arte e do pensamento como forma de resistência. Criar, hoje, torna-se um ato de desvio: recusar o caminho mais eficiente, insistir no que não se encaixa, sustentar o desconforto, preservar o inacabado. A verdadeira inovação pode estar na coragem de permanecer humano. Porque o humano não é apenas o que produz — é o que falha, o que insiste, o que sente sem garantia de sentido. É o que escreve uma frase ruim até encontrar uma boa, o que cria sem saber o resultado, o que ama sem algoritmo. Preservar isso é preservar a própria possibilidade de futuro. Talvez seja também reaprender a contemplar, sustentar o vazio, permitir que o silêncio diga mais do que qualquer resposta automática. No meio de um mundo perfeitamente calculado, ainda há espaço para o erro que ilumina, para o pensamento que desconcerta, para a arte que não pede permissão. Há frestas por onde escapa o indomável — aquilo que não se traduz em dados, que resiste à lógica da eficiência. E talvez seja nessa desobediência silenciosa que sobreviva o que nenhuma máquina pode replicar: o espanto de existir.