(Waldemar Padovani/Estadão Conteúdo) “Mantenha seus sonhos vivos. Entenda que, para alcançar qualquer objetivo, é necessário fé e ação”. A frase da ex-corredora norte-americana Gail Devers resume como a mobilização em torno de um ideal pode ser determinante para torná-lo realidade. Foi assim que um empresário brasileiro ousou idealizar o primeiro carro 100% nacional — projeto que ganhou vida, há 57 anos, pelas mãos de João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, que completaria 100 anos no último dia 26 de março. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O veículo que leva seu nome marcou época no País. Desde cedo, ele já demonstrava interesse em desenvolver automóveis, chegando a contrariar professores que não acreditavam no potencial da indústria nacional. Gurgel formou-se em engenharia pela Escola Politécnica de São Paulo (Poli-USP) e realizou pós-graduação nos Estados Unidos, onde trabalhou em empresas como a General Motors — experiência essencial para consolidar seu conhecimento técnico e visão industrial. Amaral Gurgel criou empresas como a Moplast (voltada a plásticos e autopeças) e produziu karts e minicarros. Essas iniciativas serviram de base financeira e tecnológica para viabilizar o sonho de fabricar automóveis. “O Brasil é um país cheio de problemas, e não devemos esperar ninguém de fora para resolvê-los. É com o talento de nosso povo que nós vamos fazer um país do qual podemos nos orgulhar, ou não. Tudo é uma questão de escolha. Em vez de esperar soluções externas, a Gurgel Motores desenvolveu um veículo que atende às nossas realidades e necessidades de mercado”, afirmou Gurgel, em trecho publicado na biografia Gurgel: um Brasileiro de Fibra, de autoria de Lélis Caldeira. (Fernando Pimentel/Estadão Conteúdo) Fábrica Em 1º de setembro de 1969, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel fundou a Gurgel Motores S/A, concretizando seu grande projeto. O primeiro veículo produzido foi o Ipanema, um bugue off-road com carroceria de plástico e fibra de vidro, capota de lona e motorização Volkswagen. No início dos anos 1970, surgiu o Xavante XT, posteriormente rebatizado como X-12 e, mais tarde, Tocantins, em 1988. Uma das principais características desses veículos era o uso de um chassi que combinava plástico e aço tubular, patenteado pela própria Gurgel sob o nome de Plasteel, além da aplicação de fibra de vidro na cabine — material amplamente utilizado na fabricação dos modelos da marca. “No início, produzíamos um carro Ipanema por semana. Havia uma revenda que mantinha essa pequena fábrica em funcionamento. Mesmo assim, o pátio frequentemente ficava cheio. Passamos a comercializar pela Volkswagen, após inspeção do veículo. Identificamos, em uma pesquisa, que o Ipanema estava sendo utilizado em fazendas como substituto do jipe. Decidi explorar esse mercado”, relata o criador da marca em outro trecho do livro Gurgel: um Brasileiro de Fibra. Com a expansão da empresa, em 1975 a fábrica foi transferida de São Paulo para Rio Claro (SP). Já em 1976, foi lançado o Gurgel X12-TR, com teto rígido, chassi de Plasteel e garantia de 100 mil quilômetros. Em 1979, a montadora apresentou sua linha no Salão do Automóvel de Genebra e lançou os modelos X-15 (picape cabine dupla) e X-20 (picape cabine simples). Visionário, João Amaral Gurgel já projetava a fabricação de veículos elétricos naquela época. Em 1980, inaugurou uma nova unidade dedicada à produção desses modelos, começando pelo Itaipu E150, em homenagem à usina hidrelétrica na divisa entre Brasil e Paraguai. Amaral Gurgel em pátio com modelos da marca (primeira foto); fábrica foi levada para Rio Claro em 1975 (Estadão Conteúdo/Arquivo) O caso A Gurgel ganhou destaque nos anos 1980 com o lançamento do utilitário Carajás, inovador por sua configuração mecânica diferenciada. Em 1987, apresentou seu projeto mais audacioso: o Cena, posteriormente rebatizado como BR-800, o primeiro carro popular com peças totalmente nacionais, que deu origem a versões como o Supermini e o Motomachine. Apesar do pioneirismo, a empresa perdeu competitividade após medidas adotadas pelo governo Collor, como a redução de impostos para carros populares e a abertura às importações, além de enfrentar dificuldades na produção. Em meio à crise financeira, entrou em concordata em 1993 e teve a falência decretada em 1994, mantendo as atividades até 1996. João Amaral Gurgel faleceu em 2009, após conviver por anos com o Alzheimer. Ainda assim, a trajetória de um brasileiro visionário já estava consolidada.