Jornalista, apresentadora, palestrante, influenciadora. Referência no debate sobre o amadurecimento e o combate ao etarismo, Maria Cândida tem várias camadas, que ela expõe sem medo. Subidas e descidas fazem parte da trajetória desta mulher de 54 anos — bem resolvidos, sim, senhor. E busca levar sua experiência para conscientizar as mulheres da necessidade de se posicionar. Confira trechos da entrevista que concedeu a A Tribuna: Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como você se define profissionalmente hoje? Jornalista, apresentadora, palestrante, influenciadora ou tudo junto? Primeiramente, sou jornalista. Essa é a minha base, e que também trabalha com influência, que é a criação multiplataforma. Eu sou uma empreendedora do audiovisual, tenho uma empresa que se chama Hyppolita Filmes, concentrada em conteúdos femininos. A terceira coisa que eu mais acho que eu sou: palestrante. Eu sou uma pessoa que luta por um propósito, que é a maturidade, o envelhecimento. Eu estou estudando gerontologia para ter mais expertise, para poder falar melhor sobre isso. Você passou por fases profissionais. O que guarda, por exemplo, dos tempos de TV Tribuna? A TV Tribuna foi onde eu comecei. Alguém viu, eu não sei, me viu em algum teste da Globo e me mandou para o Litoral. E o (Carlos) Manente, que era o diretor da TV Tribuna, me viu e viu o potencial. Eu era muito novinha e foi o primeiro lugar que me deu a primeira chance de pegar o microfone profissionalmente como repórter. Guardo muitas lembranças positivas. O Manente era um homem muito rígido, até controverso. Mas ensinava mesmo. Tenho uma memória afetiva muito grande pela TV Tribuna. O que te motivou a buscar a reinvenção? Foi o etarismo. Nenhuma TV me quis depois dos 43, 44 anos. Fui moça do tempo do Jornal Nacional, apresentadora do SPTV, do Globo Rural, repórter do Fantástico. Andei o mundo inteiro. Entrevistei mais de 100 atores de Hollywood superfamosos. Em 2005, eu tive minha filha Lara, que hoje tem 19 anos, e fiquei mais no estúdio (...). Em 2009, tive uma crise de pânico, quando caí em meu camarim. Fui direto pra psiquiatra, comecei a tomar remédio para pânico, depressão. Então, bolei um programa que eu já queria fazer, chamado 12 Mulheres. E esse programa meio que me libertou, porque era um formato totalmente novo. Eu fui para 12 países entrevistar 144 mulheres. Mulheres com nível social diferente, com propostas diferentes em cada país. E para entender sobre liberdade feminina, independência feminina, a revolução feminina em cada lugar. (...). E aí eu falei: “Não quero mais trabalhar na televisão. Eu quero produzir um programa como esse no Brasil. Porque eu sei que aqui tem muita coisa maravilhosa e eu quero relatar para as pessoas”. Foi quando eu decidi largar a televisão, em março de 2010. Foi quando eu decidi terminar meu casamento de 10 anos. E foi quando eu falei: “Eu vou escrever o meu primeiro livro, que é Mulheres que Brilham”. (...) Depois de três anos, eu tive que voltar a pedir emprego na TV para fazer o que eu sabia fazer, que era apresentar programa. Foi quando eu ouvi vários nãos. (...) Eu percebi que eu estava ficando velha para o vídeo. Eles me achavam velha para o vídeo. E eu comecei a entender que o mercado funciona assim. Ninguém falava de etarismo. (...) Eu me reinventei quando eu descobri o pau de selfie e o celular. De onde vem a motivação para defender o protagonismo feminino? Eu acho que, antes do protagonismo feminino, vem a vontade de resgate do que aconteceu com essa mulher. Eu sou uma mulher privilegiada, que tive oportunidades, mas mesmo assim ouvi: “Vem aqui numa sala de reunião de homens, vem aqui para embelezar a sala”. (...) Imagina a mulher que está lá no interior, no meio do Mato Grosso, no interior do Ceará, ela ouve: “Olha, você não serve mais para nada, eu vou te trocar mesmo por duas de 20”. Ela não foi incentivada a trabalhar, porque ela tinha que cuidar dos filhos. Ela não foi incentivada a estudar. As que vão são as muito corajosas. Precisa ter coragem, uma rede de apoio feminina, filhos que apoiem. “Com a maturidade, com a minha idade, com o meu lugar que eu conquistei na minha profissão, eu não faço o que eu não quero fazer”, destaca Maria Cândida (Sílvio Luiz/AT) Você percebe que a mídia e o mercado estão mais abertos à diversidade de perfis femininos? Sim, está mais aberto, principalmente depois da internet. Ela foi o grande marco da diversidade. Tudo que estava escondido, que ninguém queria mostrar, ela abriu e pôde ser mostrado. Principalmente depois da covid-19. Porque a internet multiplica a informação. Para o bem e para o mal. Então, multiplicou diversidade, multiplicou muitas coisas. Deu oportunidade, por exemplo, para mim. Se não fosse a internet, quando eu voltei para a Rede Globo, em 2019, foi porque eu comecei a fazer vídeos com o meu celular, em um pau de selfie. E aí eles viram, acharam um conteúdo fantástico e eu voltei. Se eu continuasse no mesmo modelo, não iam querer que eu voltasse. (...) Nós, mulheres, estamos levantando e lutando. Como os LGBTQIA+. Tanto que a gente se ajuda. Quais são os principais desafios que ainda precisamos superar em relação ao etarismo e aos estereótipos de gênero? As pessoas que têm 50, 55, 60, 65, 70, estão no limbo. Estão sendo aposentadas automaticamente, e é uma aposentadoria que não dá para elas se sustentarem. E elas não foram preparadas para fazer outra coisa. (...) É uma geração que está sendo aposentada ou está sendo retirada do seu trabalho. Por etarismo, porque eles não estão de acordo com a mudança tecnológica. O seu aprendizado é disponibilizado em livros. Como cada um funciona na sua jornada? Meu primeiro livro, o Mulheres que Brilham, é a história de 50 das 144 mulheres, que conta suas histórias. O Lobas vai pegar a minha história dos 40 aos 50 anos e tudo que aconteceu. (...) Esse livro fala da maturidade com excelência, Já no Menopausa como Jornada, eu afunilei sobre um momento muito especial da vida da mulher, porque, quando tem essa queda hormonal, ela vai ter sintomas que vão deixá-la no limbo, podendo perder o controle de absolutamente tudo, inclusive do trabalho e das relações. (...) E o outro livro que estou escrevendo é Economia Prateada, antecipando tendências (...). Para que a mulher possa, de repente, visualizar lugares, tendências onde já pode ir pensando em investir, porque vai ter demanda pra isso. Como você equilibra a vida pessoal e a carreira? Como toda mulher, né? É uma loucura. Mas eu sou uma pessoa muito ligada em organização. (...) Eu tenho lutado cada vez mais pra ter muito mais espaços de bem-estar. E o exercício físico é muito importante pra que a minha cabeça fique livre, fique bem. Recentemente, você assumiu, nas redes sociais o namoro com o Patrick (Gountier, empresário). Como ele se encaixa nessa sua perspectiva de vida e trabalho? Meu encontro com o Patrick foi bem inusitado, porque ele me via no colégio, nunca se apresentou para mim e só agora, há dois anos, se apresentou, via Instagram e tal. (...) Então, é um homem da minha idade, que está no mesmo momento que eu, já foi casado e teve filhos. A gente está construindo essa segunda fase da vida juntos. O que te move hoje? O que faz seus olhos brilharem? Todo esse projeto de construção autoral, de colaborar com esse processo de libertação das mulheres. Uma frase que te define hoje seria...? Eu sou uma mulher que não negocio os meus valores. Com a maturidade, com a minha idade, com o meu lugar que eu conquistei na minha profissão, eu não faço o que eu não quero fazer.