Guia do Blue Keepers orienta o setor produtivo a prevenir resíduos desde a origem (AdobeStock) A importância dos oceanos é inegável para o planeta - tanto que cobrem mais de 70% da superfície. Por conta disso, cuidar deles é uma obrigação de todos, especialmente quanto aos resíduos. É o que propõe o Guia Empresarial de Combate ao Lixo no Mar do Blue Keepers, programa de abrangência nacional que integra a Plataforma de Ação pela Água e Oceano do Pacto Global. A publicação foi criada para apoiar empresas que querem enfrentar, de forma real e territorial, a poluição crônica que atinge rios, manguezais, praias e lagoas, muito antes de chegar ao oceano. O lançamento ocorreu durante a última Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, realizada em novembro, em Belém (PA). Segundo a gerente de Água, Oceano e Resíduo do Pacto Global da ONU, Gabriela Otero, a premissa básica da publicação é que as empresas leiam, se inspirem e pensem o que elas podem fazer dentro do modelo de negócio. “Pensamos da seguinte forma: ‘Por que não trazer a história, a metodologia e o que as empresas, independentemente se estão no pacto, independentemente se estão apoiando financeiramente o Blue Keepers, um pouco de letramento, e ao mesmo tempo, deixando evidente que não são só sobre empresas que ou poluem?’ Qualquer negócio, tendo uma boa prática, alinhado com o quadro regulatório brasileiro de economia circular, tem potencial de contribuir para a proteção do oceano, que é um chamado muito urgente das Nações Unidas”, afirma. Para ela, o lançamento em Belém teve um significado especial. “Fazer isso em Belém, na Região Norte, no coração da Amazônia, um lugar que sofre com uma poluição tremenda, que não tem gestão de resíduos adequada, foi uma forma de falar que não é só sobre emissões, desmatamento ou uso do solo. Temos que falar também sobre resíduos. Foi uma estratégia para que a gente tivesse um palco qualificado”. Escapes O guia traz dados sobre fontes de escape de resíduos no Brasil; o papel estratégico das portas de entrada ao longo da costa; visões da base científica construída com o Inventário Nacional de Resíduos e o webmapa; além de cases de empresas envolvidas com o tema. Gabriela Otero explica que, com base em parceria com o Instituto Oceanográfico da USP, foram elencadas 20 cidades brasileiras que têm um risco agravado de qualquer escape de resíduo parar no oceano, e Santos é uma delas. “Não é que tenha um grande escape, mas há uma grande probabilidade qualquer saco plástico que vá para a calçada, o canal, a praia ou estuário, seguir para o oceano”, aponta. “Olhando para a infraestrutura e concentração populacional, quanto mais gente, urbanizado, maior o risco de escape”. Também foram detectadas, olhando para as bacias hidrográficas, 600 portas de entrada, com um risco, de considerável para alto, de entrada de resíduos para o oceano. Para a gerente de Água, Oceano e Resíduo do Pacto Global da ONU, o monitoramento dessas portas não existe no País. “Não faltam ONGs fazendo mutirão de limpeza. O problema é que se restringe à limpeza - e o dia seguinte? O lixo está lá. Então, a gente é muito bom de limpar, mas não é bom de prevenir. É para isso que o Blue Keepers sempre chamou a atenção: olhar esse resíduo, entender a origem dele e, a partir disso, trabalhar soluções”, salienta. Gabriela Otero pede às empresas observação real do que pode ser feito (Alexsander Ferraz/AT) Ações devem ser concretas, para além do Instagram Gabriela Otero tem consciência do risco de ações positivas com relação aos oceanos ganhar apenas contornos “instagramáveis”, sem um engajamento genuíno. “A empresa faz uma limpeza de praia, mas tem vários impactos ambientais em outras partes do Brasil. Aí já desafia o propósito. Então, tem que dosar e ver o que ela pode fazer. E que não vai ser em um ano, mas se envolver com um longo prazo, indo pelo menos até o horizonte de 2030”, pontua Gabriela Otero. A indicação que ela sugere para as empresas que desejarem, de fato, atuar junto à questão dos oceanos, é iniciar pelo diálogo e observação real do que pode ser feito. “Para a empresa que pega o guia pela primeira vez, eu falo, ‘venha conversar’, para a gente ajudar nessa leitura guiada. Para uma empresa que nunca se conectou, seria legal ela entender o potencial a partir do modelo de negócio. Toda empresa que começa com a gente faz uma análise de território - ou seja, o que você quer fazer territorialmente. Porque trabalhar com oceano faz a empresa sair da caixinha. Então, acaba trazendo insights que você antes não via”.