Thaynara Moraes, Thais Campregher, Vanessa Toledo, Nathalia Ziemkiewicz e Juliane Cavalini (Kangaroo Films) No último Especial de Verão, o Tricotáh saiu dos estúdios, abriu o céu, deixou o mar como cenário e manteve intacta a essência que atravessa cada episódio: conversar sobre o que importa. Em um encontro ao ar livre, leve na forma e profundo no conteúdo, o programa reuniu diferentes gerações para falar sobre relacionamentos, comportamento, sexualidade feminina e prazer, temas que ainda carregam tabus, mas pedem mais espaço de escuta. Vanessa Toledo recebeu as tricoteiras Thaynara Moraes, Thaís Campregher e Juliane Cavallini, além da convidada Nathalia Ziemkiewicz, jornalista, psicanalista e educadora sexual, para um bate-papo que transitou entre dados, vivências, opiniões pessoais e muitas reflexões necessárias. Quando o amor vira catálogo A conversa começou pelos relacionamentos e pelo impacto da tecnologia na forma como nos conectamos. Aplicativos de relacionamento, redes sociais e novas dinâmicas afetivas transformaram profundamente a maneira de conhecer pessoas, se envolver e estabelecer vínculos. O que antes exigia convivência, contexto e risco, hoje cabe em um perfil, uma curtida ou um match. A facilidade ampliou possibilidades, mas também trouxe desafios: relações mais rápidas, menos profundas e, muitas vezes, marcadas pela lógica do descarte. Entre monogamia, não monogamia, relacionamentos abertos e modelos tradicionais, o ponto central não foi o julgamento, mas a consciência. Mais do que escolher um formato, o que sustenta qualquer relação são os acordos claros, os limites respeitados e a comunicação honesta. Ficou evidente que reconhecer desejos não significa, necessariamente, romper compromissos. O que mudou foi a forma como a sociedade começa a entender que desejo, amor e fidelidade não são conceitos tão simples ou lineares quanto antes pareciam. Comunicação, limites e exposição digital Outro tema que atravessou o debate foi a exposição nas redes sociais. Curtidas, comentários e interações digitais ganharam um peso simbólico dentro das relações. Para algumas pessoas, são gestos inofensivos. Para outras, ultrapassam limites e geram desconforto. Mais uma vez, a conversa retornou ao mesmo ponto: não existe regra universal. O que existe é a necessidade de alinhar expectativas, conversar sobre o que incomoda e respeitar o que foi combinado. Em tempos de vida pública digital, cuidar do outro também passa por não expô-lo. Prazer feminino: avanços e silêncios No segundo bloco, o foco se voltou para a sexualidade feminina, o prazer e os tabus que ainda resistem. Nathalia trouxe um panorama claro: houve avanços importantes nos últimos anos. As mulheres falam mais, perguntam mais, buscam informação e reconhecem o prazer como parte da saúde e da vida. Se antes muitas aceitavam viver sem prazer como algo “normal”, hoje a pergunta mudou. Não é mais “tudo bem não sentir”, mas “o que posso fazer para mudar isso?”. Ainda assim, um desafio permanece: transformar autoconhecimento em diálogo. Muitas mulheres já sabem o que querem, o que gostam e o que não aceitam mais, mas ainda sentem vergonha ou medo de comunicar isso ao parceiro. O receio do julgamento, da rejeição ou do conflito ainda silencia desejos. Nathalia Ziemkiewicz (Kangaroo Films) Corpo, fases da vida e maturidade As tricoteiras trouxeram vivências que ajudaram a ampliar o olhar sobre o corpo feminino ao longo do tempo. Menopausa, perimenopausa, oscilações hormonais e mudanças no desejo apareceram como temas centrais da conversa. Ficou claro que essas fases exigem informação, acolhimento e, principalmente, comunicação dentro das relações. Entender o próprio corpo, buscar ajuda médica quando necessário e falar abertamente sobre as transformações não enfraquece vínculos. Pelo contrário: pode ser o caminho para reinventá-los. Também ficou evidente que prazer não começa entre quatro paredes. Ele nasce no cotidiano, no cuidado, no respeito e na forma como a mulher é tratada ao longo do dia. Para muitas, conexão emocional e segurança são parte essencial do desejo, especialmente em fases da vida em que o corpo pede mais atenção e escuta. A conversa também trouxe dados que ajudam a entender muitos desencontros nas relações. Homens e mulheres vivem tempos diferentes quando o assunto é excitação e prazer. Em média, o homem leva poucos minutos para atingir o ápice, enquanto o corpo feminino precisa de mais tempo, cerca de quinze minutos, além de mais estímulo, conexão e disponibilidade emocional. Não é exagero nem falta de vontade. É fisiologia somada à carga mental que muitas mulheres ainda carregam no dia a dia. Entender esse timing ajuda a tirar a culpa do corpo feminino e a transformar a intimidade em um espaço mais justo, possível e compartilhado. Nesse contexto, maturidade e autoconhecimento fazem diferença. Reconhecer o que se sente, o que mudou e o que já não faz mais sentido permite conversas mais honestas e relações mais conscientes. Prazer é saúde, não culpa Um dos pontos mais fortes do episódio foi o resgate do prazer como direito. Prazer não como algo fútil, promíscuo ou separado da vida “real”, mas como energia vital. Ele impacta o humor, o sono, a criatividade, a produtividade e a qualidade das relações. Não é preciso escolher entre ser mãe, profissional, companheira ou uma mulher que também sente prazer. Uma coisa não exclui a outra. Dá para ser tudo isso ao mesmo tempo. Buscar prazer não diminui ninguém. Pelo contrário: amplia. Bastidores, leveza e despedida de verão Como todo Especial de Verão, o episódio também abriu espaço para bastidores, brincadeiras, sugestões de novos destinos e aquele clima descontraído que já virou marca do Tricotáh. Entre risadas, sonhos de gravações futuras e participações espontâneas, o programa se despediu da estação com afeto, presença e muita troca. No encerramento, uma cena simples e simbólica: a filha da Thaís se juntou ao grupo, lembrando que falar de prazer, corpo e relações também é construir um futuro com mais naturalidade, informação e respeito. Kangaroo Films Pra guardar na caixinha Talvez o maior convite deste último Especial de Verão seja esse: conversar. Conversar sobre desejo, limites, acordos, fases da vida e expectativas. Entender que prazer não é luxo, nem culpa, nem tabu. É parte da saúde, da autonomia e da forma como escolhemos viver com mais verdade e desejo. O verão termina, mas as reflexões ficam. E elas seguem com a gente, estação após estação. Thaynara Moraes, Thais Campregher, Vanessa Toledo, Nathalia Ziemkiewicz e Juliane Cavalini (Kangaroo Films) Onde assistir O Tricotáh vai ao ar toda terça-feira, às 19h, com programa inédito. Este Especial de Verão e outros episódios podem ser revistos a qualquer momento no YouTube. Link do youtube: https://youtu.be/fWnk15eWUcg?si=aFXlIiK2NjIjv-5H